sábado, 29 de janeiro de 2011

Escuitchando III


Faz tempo desde que escrevi meu último post sobre música. Aliás, faz tempo que não escrevo nada no meu blog. O twitter tem culpa nisso, já que estimula a minha capacidade de síntese com a urgência da internet. Ou seja, estimula minha preguiça.

Sem mais delongas, segue o que andei escutando nos últimos meses e minhas humildes impressões:

:: Rock Dust light star (Jamiroquai)
Jamiroquai talvez seja uma das bandas que eu acompanho a mais tempo. Durante esse tempo pude observar a translação daquele som carregado de percussões e tecladinhos rhodes para o uso de sintetizadores e baterias eletrônicas. O legal é que o jazz e o funk sempre estiveram ali, fundidos no meio da bagaceira. Esse novo trabalho continua fazendo bastante uso de sintetizadores, mas o som voltou a ser algo mais orgânico, com a introdução de batidas mais naturalmente acústicas e riffs de guitarra. Isso é perceptível logo de cara com a faixa que abre o cd e dá nome ao disco. A segunda faixa (White Knuckle Ride) é um dance típico da banda, pra levantar o salão. Smoke and Mirrors é uma excelente surpresa: teclados vintage, sax, boa linha de baixo, enfim, tudo que tem de bom. Mas por algum motivo não empolga tanto quanto promete a introdução. All Good in The Hood por outro lado, promete e cumpre. Melhor faixa, com certeza. Bateria e linha de baixo formam uma dupla perfeita com uma levada guitarrística ao fundo. Hurtin' até aponta uma nova direção no som da banda mas revela-se pouco inspirada. Daí em diante as coisas seguem bem, na média, sem muitos altos ou baixos, com destaque para a pulsante She's A Fast Persuader. Um ótimo cd, mas não chega a ser marcante para quem já conhece a banda.

:: Muito Pouco (Paulinho Moska)
Desde que meu amigo Machado passou por essas bandas e me deixou um catatau de mp3 do Paulinho Moska, não parei mais de escutá-lo. Letras simples, mas bem boladas, melodias gostosas com arranjos que convidam o violão. É sempre assim e é sempre bom. Dessa vez, Moska arriscou um cd duplo. No Muito, as faixas são mais agitadas, acompanhadas de bateria e metais, mas não a ponto de serem dançantes. Elas terminam assim que alcançam a velocidade de cruzeiro. No Pouco, a parada é mais voz e violão, com algumas melodias quase minimalistas. Muito pouco (que já foi apresentada ao público na voz de Maria Rita e que aqui volta numa versão tango-rock), Pêndulo (sambinha delicioso com letra que faz metáforas com a geometria) e Quantas vidas você tem (batida meio jovem-guarda e letra melancólica) são as pérolas do Muito. Semicoisas (que me lembra uma canção de ninar), O tom do amor (lindíssima...), Saudade (parceria com Chico César e melhor letra do disco) e Nuvem (parceria com Pedro Aznar) dão brilho a Pouco. Engraçado que depois de escutar algumas vezes, achei que o Muito é bom mas podia ser melhor e o Pouco acaba sendo muito bom.

:: Conditions (The Temper Trap)
Talvez a melhor descoberta do ano que passou. É o primeiro trabalho dessa banda de rock australiana. O álbum é perfeito, do início ao fim. Alguns podem acusar semelhanças com o som do U2 (especialmente com o trabalho How to Dismatle an Atomic Bomb). Mas aqui a parada é mais contida, diversificada, o que deixa o álbum mais balanceado, fácil de ouvir repetidas vezes e, a cada vez, melhor. Difícil destacar uma faixa ou outra, mas Sweet Disposition é com certeza um must-listen. Os riffs de guitarra são pegajosos e com um textura espacial que faz o ouvinte viajar alguns anos-luz galáxia afora. Imersão total. Love Lost é uma excelente introdução nesse sentido: começa com um som contido, fechado, para depois explodir no refrão. Dá pra imaginar as estrelinhas saindo da guitarra. Algo parecido ocorre com Soldier On, só que o contraste é ainda maior. Down River tem a bateria como forte. Fader tem uma levada dançante com direito a um deslavado "uuuuu uh uh uh" no refrão e um som crescente de guitarras. Ressurection começa nas cinzas e desemboca em um final eletrizante, mas não sem antes passar por uma ponte de baixo e bateria que abriga o melhor riff do álbum. Science of fear mantém a empolgação até a faixa instrumental Drum Song, que encerra o trabalho. Nota 10.

:: Pilvet liikkuu, minä en (Yona)
Esse álbum foi um presente (tanto no sentido figurado como no literal) de uma amiga finlandesa. O nome do álbum quer dizer (num tradução livre) "As nuvens passam, eu não". São 11 canções belíssimas, cantadas pela voz suave de Yona e sempre acompanhada de belos arranjos de piano e violino. Não foi à toa que no mesmo dia que ganhei acabei ouvindo o cd umas 5 vezes consecutivas. As influências são diversas: jazz, reggae, folk e até um pouco de tango misturam-se num caldeirão cujo resultado é sempre algo relaxante de se ouvir. Todas as faixas são boas, mas o destaques vão para a canção que dá nome ao álbum e para a maravilhosa Uusi sävel.

:: Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (Otto)
Nunca fui muito fã de Otto. Confesso que desde o estouro da faixa Bob na MTV, não procurei ouvir nada do sujeito. No entanto fiquei sabendo do seu casamento com a Alessandra Negrini e quando soube que seu novo trabalho era motivado pela dor de cotovelo da separação, não pensei duas vezes e baixei o trabalho. Dor de cotovelo é sempre um ótimo motivo pra fazer boa música. Crua, primeira faixa do disco já escancara isso. Tem coisa mais sincera do que a dor de alguém que canta "Mas naquela noite que eu chamei você fodia, de noite e de dia"? E, ao fundo, cordas de violino e violoncelos dando ares orquestrais ao desabafo. A lamentação segue nas faixas O Leite (com participação de Céu) e no rockão 6 minutos. Essa última se destaca no álbum tanto pela letra raivosa quanto pelos arranjos de guitarra não menos revoltados. Em Meu Mundo, a sensação é de estar ouvindo Liminha do Cordel. Todo o cd tem um ar melancólico, sabiamente sugerido por uma sonoridade vintage, anacrônica, com timbres tristonhos. Naquela mesa é a mais óbvia nessa direção, soando como algo saído da Jovem Guarda. Filha é uma faixa viciante ("Aqui é festa amor, e há tristeza em minha vida"). Por fim, Agora Sim, encerra o trabalho. Visceral e poético.

:: Careless Love (Madeleine Peyroux)
Tal como um bom vinho a musicalidade de Madeleine Peyroux é digna de uma boa degustação. Cantora de Jazz que compõe o novo cenário contemporâneo (com suas coleguinhas Diana Krall e Norah Jones), Madeleine capricha num som clássico, sempre acompanhada de piano e baixo acústico. Dance Me To The End Of Love dá as caras e Don't Wait Too Long prossegue de forma irresistível. Algumas faixas como Between the Bars e I'll Look Around são mais melancólicas e introspectivas. Careless Love é ensolarada e J'Ai Deux Amours, a única faixa em francês, é charme puro. Um álbum de jazz bem trabalhado e balanceado que vai muito bem com um vinho. Mesa pra dois, s'il vous plaît!

:: Maria Fumaça (Banda Black Rio)
Em busca de um bom funk nacional setentista já havia escutado Funk Como Le Gusta, Azymuth e Galliano. Mas foi por sorte que acabei me esbarrando com esse cd da banda Black Rio enquanto tomava uns chopes com um amigo em um boteco de São Paulo. E com certeza foi o que mais me empolgou dentre todos. O álbum é uma releitura de clássicos da música brasileira, em ritmo de funk. Tudo soa bom demais. Maria Fumaça abre a bagaça fazendo a festa. A cuíca, o chocalho e o agogô se misturam com a batera e os metais em perfeita harmonia. Na Baixa do Sapateiro, a segunda faixa, tem aqui a sua releitura mais dançante da história. É um samba doido. Ouvir Mr. Funky Samba é o mesmo que imaginar uma versão black power tupiniquim de embalos de sábado a noite. Até Baião de Luiz Gozanga entra no caldeirão. Tudo segue na mesma levada, sem perder o pique até a penúltima faixa. Na última faixa, Junia, eles metem o pé no freio e vão desacelerando. A melodia do trombone dá o tom de despedida como nos créditos de um filme de exploitation.

:: Brand New Eyes (Paramore)
Odeio música emo. Não que Paramore seja emo. Mas só o fato de ter ouvido por aí algumas tentativas frustadas de colocar esse rótulo na banda, já foi suficiente para deixar meu preconceito em estado de alerta. Após ouvir um acústico na MTV (que atualmente, por sinal, é um antro de emos) fiquei curioso e acabei baixando o novo trabalho da banda. Acabei me surpreendendo. Não deixa de ser adolescente (e é assim que me sinto ao ouvir), mas os caras são inegavelmente bons no que fazem. A vocalista Hayley Williams tem uma voz feminina mas potente, na medida certa que exige o gênero. Aliás, qual seria? Indie? Pop-punk? Whatever... Comparar com Avril Lavigne é um equívoco justificável, mas não passa de um equívoco. A banda deve ser levada mais a sério do que isso. Percebe-se que são jovens em maturação. Ignorance, Brick by Boring Brick, os dois hits, e Turn It Off (com uma ótima melodia) são evidências desse processo. Claro que algumas coisas ainda cheiram a xixi na cama, como The Only Exception, Playing God e Where the Lines Overlap. As duas faixas finais (All I Wanted e Decode) encerram o álbum de forma soturna e com uma pegada mais pesada. Deixa uma boa impressão.

:: Far (Regina Spektor)
Após escutar a trilha sonora de 500 dias com ela, fiquei interessado por Regina Spektor. Baixei o álbum Begin to Hope e fiquei viciado por alguns dias (semanas?). Queria mais e aí descobri o cd mais novo intitulado Far. Regina Spektor é uma pianista russa e possui um estilo meio difícil de rotular. Já li em algum lugar algo como anti-folk. Se macular o piano, brincando com outros instrumentos não convencionais e fazendo sons esquisitos com a boca for uma forma de não se levar muito a sério, então sim, anti-folk é uma boa caracterização. Com uma voz meio infantil e estridente, e não menos fofa e bonitinha, as melodias são sempre regidas pelo som do piano. O que mais diverte são as brincadeiras fonéticas presentes em quase todas as faixas. Eet, a segunda faixa, por exemplo, é o som da última sílaba Beat (Beat, eet, eet...). Mas a melhor faixa com certeza é Dance Anthem Of The 80's, uma baladinha com um arranjo de piano inicialmente infantil, mas que revela-se mais dissonante após a introdução. Algumas músicas são mais desaceleradas, só piano e voz (Genius Next Door, Human of The Year), sempre com lindas melodias.

:: Project (Richie Kotzen e Greg Howe)
Sempre achei que minha paixão pelo rock/metal progressivo se resumisse a uma banda (Dream Theater) e suas ramificações (Liquid Tension Project) além de algumas escutadelas de Rush. Mas fui arrebatado por esse álbum logo na primeira audição, que ocorreu por acaso, logo após o término do recital de um amigo guitarrista. É um dueto de guitarristas que se saem maravilhosamente bem tanto melodicamente quanto ritmicamente. Como dita o manual do progressivo, os tempos são cheios de quebras rítmicas e contratempos. Destaque para as faixas One Function (primeira do álbum), Present - Moment (com um ritmo empolgante e uma melodia sincopada) e a Groove Epidemic (um funk meio desacelerado). Trench é a faixa mais acelerada e virtuosa, clássico do gênero. Pena que o álbum encerra com a chatíssima e repetitiva Led Boots.

:: Quando o Canto é Reza (Roberta Sá e Trio Madeira)
De Roberta Sá eu só conhecia Que Belo Estranho Dia Para Se Ter Alegria (ganhou disco de ouro). Confesso que não me apaixonei pela sua voz naquela ocasião. Demorou um pouco, mas esse novo trabalho feito em conjunto com o Trio Madeira me arrebatou. As músicas, todas de autoria do compositor baiano Roque Ferreira, são originalmente feitas para o samba de roda. Roberta Sá adicionou o choro do Trio Madeira e fez essa bela homenagem. O cd é lindo, melodicamente impecável. Os arranjos são caprichados e as melodias arrebatam na primeira audição. Pra ser justo, precisaria destacar todo o cd. Mas, por preguiça, vou indicar as faixas que mais grudaram no meu córtex. Zambiapungo (linda de cabo a rabo), Cocada e Chita Fina (as mais divertidas), Água da Minha Sede (poética e com belos desdobramentos melódicos), Marejada (Ah... ainda tiro você no violão!). Muito massa!

Bom, é isso. Taí uma lista que reflete muito bem o meu ecleticismo musical. Espero que gostem das minhas recomendações. Boas audições!

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