
Fogo e destruição. É esse o impacto do descaso.
Há uma semana, um avião da TAM pousou pela última vez na pista do aeroporto de Congonhas para em seguida mergulhar para a morte. Não me lembro qual foi a última vez em que fiquei tão revoltado. Sinto que minha revolta é muito pouca para tudo o que acontece, e ao mesmo tempo há quem ainda encare um acidente dessas proporções com tamanha naturalidade, como se fosse uma fatalidade que corrobora estatísticas de acidentes aéreos, como se fosse algo que, cedo ou tarde, iria acontecer naturalmente. Mas não é nada disso. Nada disso é natural ou obra do acaso como certas entidades e seus representantes ainda insistem em afirmar, como se tivéssemos a palavra "IMBECIL" estampada em nossas testas. Não, não é obra do acaso. É obra do ocaso por que passa o nosso sistema de aviação. É obra do descaso. Seria por acaso se minha irmã, meu pai ou outro membro da minha família estivessem naquele vôo. Seria por acaso que eu estaria no prédio em que se chocou o avião. Foi por acaso que não fui mais uma vítima dentre as quase 200 que perderam suas vidas quase que instantaneamente. Foi por acaso que não fui mais uma vítima do ocaso e do descaso.
Bilhões de reais foram investidos nos nossos aeroportos nos últimos anos. Toda essa dinherama priorizou o conforto e a ampliação do espaço interno dos aeroportos, comportando bancos confortáveis (alguns nem tanto há de se dizer), novos banheiros, escadas rolantes, elevadores, novos serviços e lojas, lojas e mais lojas, cafés, observatórios, estacionamentos e painéis digitais. A segurança ficou em segundo plano. Operadores e os aparelhos que utilizam, essenciais para manter nossa tranquilidade nos céus, relegados a segundo plano, como sempre. Pilotos, aeromoças, passageiros, todos se transformando em números nessa jogatina que prioriza somente os interesses econômicos. Sempre os interesses econômicos. Enquanto isso torcem para que tudo dê certo lá em cima e que a merda deixada por eles não seja percebida ou até mesmo ignorada. Mas aí um avião se choca com outro e tudo cai por terra. Os pontos cegos dos nossos radares, a rotina estafante dos operadores, a disputa desenfreada das empresas aéreas por mais passageiros, estava tudo lá. Mas, ainda bem, pensaram eles, tínhamos os americanos para dividir a culpa!
E agora? Vão continuar jogando a merda pra baixo do tapete? Vão continuar dizendo que está tudo ok? Dizem que esses acidentes são sempre a conjunção de diversas falhas, como se pudessem fragmentar a causa até o ponto de pulverizá-la, e junto com ela a culpa que carregam. O descaso com cada um desses fatores é, na verdade, um movimento orquestrado que distancia os desastres do acaso e os aproxima da iminência. Nos notíciários o espaço ficou dividido entre especulações sobre as causas do acidente e as notícias do panamericano. Já não mais espaço para Renan Calheiros, playboys espancadores de indefesos e as operações nos morros do Rio. Parecem coisas do passado. A fila tem que andar nos notíciários. Só a situação do país é que permanece chafurdando lentamente nessa merda inerte que chamamos de nação.

Fonte (fotos): Folha Online